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O protagonismo da Universidade de Stanford, no Vale do Silício

Um marco histórico desse protagonismo da Universidade de Stanford sobre o Vale do Silício foi a fundação da HP, em 1939

By Jacir Venturi
5 min de leitura
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A Universidade de Stanford iniciou as atividades letivas em 1891, em um legado do casal Leland e Jane Stanford à memória de seu filho único, que falecera com apenas 15 anos, de febre tifoide, quando passavam férias em Florença, na Itália. Leland Stanford, empresário, senador e governador da Califórnia, dedicou a essa empreitada parte de sua fortuna, adquirida como um dos big four construtores de ferrovias dos EUA, inclusive parte da fazenda onde residia o casal, em Palo Alto, hoje com área de 3.310 ha.

A concepção da universidade mereceu um planejamento meticuloso de cinco anos e a participação de um dos mais conceituados arquitetos do país, que assina também o projeto do Central Park de Nova Iorque. À época, na região escolhida, predominava a exploração de minas de ouro, e a Califórnia como um todo era tida como terra inóspita, de caipiras.

Nesse ecossistema tão pouco promissor e fruto dos anseios de genitores que enfrentam, com galhardia, a mais intensa tragédia humana – a perda de um filho –, nasce uma universidade com DNA inovador. Até então, o acesso das moças ao Ensino Superior era quase nulo, enquanto Stanford, desde o primeiro ano, disponibiliza as vagas para jovens de ambos os gêneros. A maioria absoluta das universidades era vinculada a credos religiosos, mas Stanford nasce laica. Por iniciativa de Jane, constroem- se alojamentos para estudantes e professores dentro do campus, algo inédito para a época.

Ademais, tamanho foi o zelo em contratar bons docentes e em projetar um campus faustoso que choveram estocadas – dizia-se que renomados catedráticos iriam ensinar para as belas paredes. Os fatos, para o nosso gáudio, chicotearam os críticos: 555 alunos matriculados no primeiro ano de funcionamento.

Apenas dois anos após concretizado o sonho, Leland veio a falecer, e a viúva doou quase toda a fortuna remanescente à Universidade, na época US$ 11 milhões, quantia cuja aparência nominal não representa adequadamente a expressiva cifra em valores correntes: mais de US$ 320 milhões.

Dessa academia emerge uma megaempresa com orçamento anual de US$ 7,3 bilhões, detentora de hospitais, pesquisas, patentes e ações de empresas ali incubadas ou aceleradas, sendo o ensino responsável por apenas 15% a 18% da sua renda bruta

Jacir Venturi

Dessa academia emerge uma megaempresa com orçamento anual de US$ 7,3 bilhões, detentora de hospitais, pesquisas, patentes e ações de empresas ali incubadas ou aceleradas, sendo o ensino responsável por apenas 15% a 18% da sua renda bruta. As doações são igualmente significativas: US$ 1,13 bilhão/ano, com 76 mil doadores cadastrados, em uma cultura muito intensa lá, quase nula cá. Alunos matriculados perfazem um total de 16.430, mais da metade em programas de especialização, mestrado e doutorado, cuja anuidade média é de US$ 69 mil.

Contíguo geograficamente a Stanford e longe de qualquer coincidência, o Vale do Silício é reconhecido como a Meca da Tecnologia. Em meio à diversidade de origens – 40% das pessoas que ali trabalham são estrangeiras de nascimento –, há uma atmosfera de bits e bytes que, paradoxalmente, também desperta valores humanos, como competências socioemocionais, trabalho em equipe, comunicação interpessoal, transparência etc.

Um marco histórico desse protagonismo da Universidade de Stanford sobre o Vale do Silício foi a fundação da HP, em 1939, pelos estudantes Hewlett e Packard, inicialmente uma pequena empresa de componentes eletrônicos. Desde então, nasceram nessa região nada menos que Cisco, eBay, Google, Instagram, LinkedIn, Netflix, Nike, Nvidia, Sun Microsystems, Tesla, Yahoo. Ademais, é a instituição de ensino que detém o maior número de prêmios Nobel em todo o planeta.

Destarte, como fruto da persistente prática de uma tríplice hélice – universidade, empresa e governo – na propulsão da inovação e resolução de problemas, estima-se que 39.900 empreendimentos criados por alunos e egressos geram uma receita anual de US$ 2,02 trilhões, equivalente ao PIB brasileiro.

O que torna ainda mais estimulante o magnífico e bem conservado campus, ornamentado por dezenas de esculturas de Auguste Rodin, são as bicicletas. Sempre aceleradas (são 13 mil delas, sendo os carros proibidos), deslocam- se para as bibliotecas, cantinas, alojamentos ou de um bloco para outro. Naquela tarde ensolarada de primavera, maravilhados em visita a Stanford, testemunhamos cenas prosaicas nesse templo do saber – rapazes e moças de calções pedalando suas bikes, alegremente, e se galanteando. Mas atenção, nefelibatas: há casos de atropelamentos, suprema inglória para um turista ou um stanfordista.

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