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Autismo e TDAH na escola: como garantir educação inclusiva para crianças neurodivergentes

Número de diagnósticos vem crescendo no Brasil e escolas precisam estar preparadas para lidar com cada caso

By Assessoria
8 min de leitura
@Freepik
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De especialista em especialista, exame após exame, uma pessoa neurodivergente pode levar anos até chegar a um diagnóstico preciso. Transtornos como o autismo (TEA) ou o déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), embora comuns, só passaram a receber atenção da sociedade há poucos anos, o que faz com que muitos convivam com essas condições sem ter conhecimento. Entender o diagnóstico e pesquisar sobre ele é uma das formas de oferecer mais qualidade de vida a quem o recebe – e a escola é responsável direta por boa parte do desenvolvimento de crianças e adolescentes com TEA ou TDAH.

O Center of Diseases Control and Prevention (CDC), órgão do governo dos Estados Unidos, estima que uma a cada 110 crianças tem autismo. No Brasil ainda não há uma estatística segura sobre o assunto, porque uma pergunta sobre o TEA foi incluída pela primeira vez no questionário do Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas ainda não tem resultados divulgados. A estimativa é de que, em todo o país, dois milhões de pessoas tenham TEA. No caso do TDAH, a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) aponta que, a nível mundial, algo entre 5% e 8% da população apresenta o transtorno.

O que é preciso observar na escola?

Com um número cada vez maior de casos diagnosticados, os debates acerca dessas condições vêm, há algum tempo, ganhando força e se ampliando em busca de soluções para garantir uma vida confortável e saudável para todo esse contingente. E, em certa medida, esses debates passam, necessariamente, pela escola. Escolher uma instituição de ensino é um desafio e, quando a criança tem algum diagnóstico, essa tarefa se torna ainda mais complexa. Algumas dicas podem ajudar nessa missão. De acordo com a especialista pedagógica do Sistema Positivo de Ensino, Wania Burmester, “ao entrar na escola, deve-se observar atentamente como se é recebido, como a criança é recebida, como as pessoas tratam umas às outras. Para uma criança aprender, ela precisa de sentir bem, ser acolhida, sentir que acreditam nela. Isso é muito importante na relação de ensino e aprendizagem”.

Uma visão humanizada e acolhedora é fundamental, mas não é tudo. A especialista explica que também é preciso observar a questão pedagógica. “Questione se a escola tem um modelo de Plano Educacional Individualizado (PEI) que aponte as habilidades e limitações da criança para que o plano de trabalho com ela possa ser traçado e proponha-se a compartilhar o maior número possível de informações sobre seu filho, de modo a compor esse PEI. Que tipo de adaptações essa escola oferece? Existe um Atendimento Educacional Especializado (AEE), um espaço a que a criança possa ir em momentos em que seja necessário sair da sala de aula? A criança terá um acompanhante nesses momentos ou não? Lembre-se de que a inclusão acontece quando a criança está bem e feliz, mas, principalmente, aprendendo”, alerta.

Além da sala de aula

Mas não basta que a escola esteja preparada e pronta para fazer as adequações necessárias, é preciso que a família também se comprometa com o aprendizado da criança. Faz parte desse processo, em primeiro lugar, relatar para a escola quem a criança é, quais suas principais dificuldades e habilidades, os aspectos comportamentais que podem influenciar no dia a dia escolar. Quanto mais informações a escola tiver, mais fácil será a adaptação. Outro passo importante é acompanhar como é o relacionamento dela com os colegas, funcionários e professores. Ao abrir um espaço de diálogo franco com a escola, o retorno será, também, muito sincero, com apontamentos do que está sendo difícil e o que está indo bem.

“Preste atenção a como essa criança vai e volta da escola, porque criança tem que ir feliz e voltar feliz. É claro que eles não estarão ótimos todos os dias e, em alguns momentos, ficarão tristes porque discutiram com um colega ou levaram bronca de um professor, isso é normal. Mas tente perceber se, de forma geral, a criança está feliz, gosta da escola e dos colegas e se remete a eles, seja de forma verbal ou não”, aconselha.

E, quando isso não acontecer, a dica é, antes de tudo, fazer uma autoavaliação. Wania destaca que, instintivamente, é normal ter um instinto de proteção materno ou paterno, o que pode gerar a sensação de que a escola deveria tratar as crianças da mesma forma que os pais. Mas isso não é verdade. A escola não é uma extensão da casa, ou a casa da avó, ou um espaço terapêutico, ou mesmo um espaço em que a criança será tratada individualmente o tempo todo. “Algumas frustrações fazem parte. Agora, se depois dessa avaliação eu entendo que não é um exagero meu, então a melhor conduta é ir até a escola e conversar”, aponta. Abrir o jogo e esclarecer como os pais gostariam que a situação fosse conduzida é saudável e importante para que, juntos, escola e família cheguem à melhor solução.

Uma rede de amizades

Além das conversas com a escola, outra atitude que a família pode tomar é se aproximar das famílias das crianças com quem o filho convive. Convidar os colegas para brincadeiras em casa, criar situações em que o filho possa estar com essas crianças fora da escola e que os pais possam se relacionar com os demais pais gera uma convivência que pode ajudar a amenizar comportamentos e preconceitos que levem ao bullying, por exemplo.

“Quando envolvemos todo mundo, temos mais chances de ter bons relacionamentos e aprender a lidar com as pessoas. Depois desses encontros, converse com a criança: ‘veja, seu amigo não gostou disso’. Nomeie os sentimentos para que ela vá aprendendo a reconhecê-los”, afirma. Para muitas pessoas neurodivergentes, reconhecer esses sentimentos nos outros pode ser difícil. Então, é indispensável orientar a criança, relacionando as reações dos colegas a situações pelas quais ela mesma já vivenciou. Isso contribui para a compreensão do outro e melhora as relações.

Cada criança é única

Por fim, é importante lembrar que, ainda que os transtornos se dividam cientificamente de maneira igual, um diagnóstico é sempre diferente do outro. No TEA há uma infinidade de questões que precisam ser levadas em conta na hora de definir como trabalhar com uma criança. E com o TDAH não é diferente. Segundo a ABDA, cerca de 70% das crianças que têm o transtorno apresentam outras comorbidades associadas. Assim, cada criança é única e nem sempre será possível, para a escola, oferecer um tratamento padronizado por diagnóstico. “Não adianta ter uma receita de bolo. O que vai contribuir para uma adaptação adequada é a parceria e a comunicação entre família e escola”, finaliza.

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